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Jovens demonstram ignorância sobre direitos humanos

Artigo publicado no
Jornal "O Tempo" de BH em 19/05/2002


Esta matéria publicada domingo, 19/05/2002, no Jornal "O Tempo" de Belo Horizonte, além ser um convite à reflexão, é também um grande motivo de preocupação. Nossos universitários desconhecem direitos humanos, chegam a 40,5% os alunos justificando a tortura e 44,5% concordam parcial ou totalmente com o fechamento do Congresso Nacional. Até que enfim uma pesquisa avalia o mais importante: o ensino do humanismo no ensino superior. Os reitores alegaram que "os alunos já chegam às universidades alienados e que isso é consequência da própria sociedade". Não deixa de ser verdade, o que não justifica que eles não possam atuar sobre essa deformação. É o futuro da democracia em perigo. E não devemos nos esquecer que, na ditadura, as centenas de jovens torturados e mortos pertenciam às camadas intelectuais e da elite, o que prova o grande perigo de todos não se engajarem na luta por uma sociedade civilizada, na qual os direitos humanos sejam iguais para todos.

Pesquisa com alunos universitários de Belo Horizonte revela que os jovens mineiros consideram aceitáveis diversas práticas condenadas, como a tortura e o linchamento, além de desconhecerem diversos de seus direitos civis. O resultado da pesquisa foi considerado desastroso pelo professor Geraldo Magela Carozzi de Miranda, que coordenou o levantamento realizado entre 1998 e agosto do ano passado. Para ele, as respostas dos estudantes apontam para um futuro desestimulante. Outra conclusão derivada da pesquisa é que as universidades estão falhando na formação para a cidadania. Professores e diretores das universidades reconhecem que há um grave problema ético no país e equívocos no foco das instituições.

Universitário desconhece direitos humanos

Imagine uma sociedade onde estudantes universitários aceitem, de alguma forma, as práticas de linchamento e tortura e considerem que um cidadão pode ser preso por não portar a carteira de identidade. Além disso, que confiem mais no Exército que na Presidência da República ou no Congresso Nacional e, por fim, que não tenham clareza sobre seus direitos e deveres enquanto cidadãos e achem que os chamados loucos devem andar pelas ruas com algum tipo de identificação. Essas opiniões não foram expressas por jovens de algum país distante que vivem sob governo ditatorial, mas por alunos de universidades de Belo Horizonte em pesquisa iniciada em 1998 e concluída em agosto do ano passado. O estudo "Direitos e direitos humanos: o que pensam os universitários?", que deve ser publicado neste mês, foi coordenado pelo professor Geraldo Magela Carozzi de Miranda, do Unicentro Newton Paiva e patrocinado pelo Programa de Iniciação Científica da instituição. O objetivo era saber o que alunos que frequentam cursos superiores pensam sobre seus direitos e deveres e sobre a aplicação dos direitos humanos para as minorias. "O resultado foi desastroso", avaliou o pesquisador, que é jornalista e mestre em ciência política. Segundo Carozzi, a pesquisa mostra estudantes conservadores, que não estão pensando em termos de solidariedade social. "Os índices de aprovação de linchamento (9,5%), por exemplo, se tornam mais graves em se tratando que a opinião é de alunos universitários, de onde se espera que venham idéias esclarecidas", disse. Outros pontos destacados como preocupantes pelo pesquisador são que 40,5% dos alunos acham que a tortura é justificável em alguns casos e 44,5% concordam parcial ou totalmente com o fechamento do Congresso Nacional.

As faculdades estão formando cidadãos?

"Se a universidade tem a atribuição de formar cidadãos, é certo que não a está cumprindo de maneira satisfatória". A afirmação é do pesquisador Geraldo Carozzi, do Unicentro Newton Paiva, autor da pesquisa "Direitos e direitos humanos: o que pensam os universitários". O estudo feito por ele mostra um estudante que desconhece seus direitos e deveres e têm uma visão distorcida dos fatos, como, por exemplo, achar que a prática de tortura, às vezes, é justificável. "Há uma preocupação muito grande das escolas com a formação técnica para o mercado, sendo que a parte humanista está sendo posta de lado." Mas os responsáveis pelas instituições, se reconhecem que há falhas na formação humana do estudante, não admitem a culpa. Apesar de não comentarem a pesquisa, alegando que não tinham os dados em mãos, os dirigentes das faculdades onde estudam a maioria dos alunos entrevistados afirmam que as escolas estão cumprindo o seu papel. Para eles, o problema é resultado de uma sociedade individualista. Para o reitor da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas), padre Geraldo Magela Teixeira, alguns alunos já chegam à instituição com distorções de formação. "A universidade pode atuar exercendo sua função de formar homens civilizados e não somente instruídos", disse. O reitor Newton Paiva, do Unicentro Newton Paiva, também acredita que as distorções sejam da sociedade. "Há uma descrença e apatia por parte dos alunos. Devemos encontrar maneiras de incentivá-los a acreditar nas mudanças." O vice-reitor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Marcos Borato, também considera que a sociedade individualista reflete no comportamento do aluno. "É função da escola oferecer oportunidades para que os alunos sejam capazes de alterar o que está colocado", disse. Nas três universidades há disciplinas obrigatórias de cunho humanista, como psicologia, sociologia, filosofia, entre outros. Além disso, os dirigentes garantem que há vários projetos junto a comunidades carentes e ao poder público.

Alunos divergem em suas opiniões

Nos campi das universidades o que se pode ver é todo tipo de realidade: há alunos que defendem com entusiasmo os direitos humanos, aqueles que se mostram mais conservadores e os alienados. Os alunos de direito da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas) Gustavo Lopes Pires de Souza, 22, e Lisieux Dias Borges, 22, são claros em suas posições em defesa dos direitos humanos. Estagiários do Serviço de Assistência Judicial (SAJ) da PUC, que presta serviço a pessoas carentes, eles dizem que no local aprendem adequar a lei às realidades sociais. "O texto da lei é frio e precisa ser adaptado para atender a sociedade." Menos certo de suas posições estava um grupo de estudantes de relações exteriores, também da PUC. "São questões complexas. Para casos extremos eu defendo a pena de morte e nunca parei para pensar sobre a questão do linchamento. Em determinadas situações, até entendo a atitude de quem lincha outra pessoa", disse a estudante Renata Keller, 22. No início da conversa, ela e suas colegas Ludmila Scorsulini, 19, e Lívia Garrido, 18, defenderam a pena de morte. Em seguida, voltaram atrás e disseram acreditar que, se houvesse um sistema judiciário confiável e a garantia de integridade da pessoa, essa condenação seria desnecessária. A estudante de história da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Josemeire Alves Pereira, 24, sente na pele a importância da garantia dos direitos humanos. Ela é moradora da Vila Estrela, no aglomerado Santa Lúcia, na região Centro-Sul da capital. Filha de um operário da da construção civil e uma empregada doméstica, ela teve que se esforçar bastante para entrar na universidade. "Sempre estudei em escola pública. Depois, ganhei bolsa para fazer cursinho e passei no vestibular. Venho de uma comunidade onde é preciso lutar pelos direitos mais básicos, como brigar por água, esgoto, habitação, educação", disse. Para Josemeire, a universidade tem muitos instrumentos e meios de modificar e transformar a sociedade, mas os utiliza de maneira incipiente. O mais triste, segundo ela, é a apatia e resistência, dentro da universidade, em se discutir temas ligados a direitos humanos.


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