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Jornal Recomeço
Elaborado pelos presos da Cadeia Pública de Leopoldina - MG



A CHAVE DA RIQUEZA

José do Carmo Rodrigues

Uma talvez equivocada procura de paz anda trazendo de volta a cidades como Leopoldina alguns exilados do medo, gente assustada com a chamada falta de segurança nos grandes centros. Falta percepção de que, também por aqui, os muros vão ficando baixos. Falar, por exemplo, de drogas ou furtos em residências neste nosso antes tranqüilo interior, é dramatizar banalidades. Alinhavar reclamações e conceitos pessimistas também não adianta e nem sugere bom gosto sociológico.

Sabemos que a classe média brasileira (e nela entramos nós) é beneficiária de uma ordem político-jurídica que funciona para protegê-la da indigência social, da qual ela própria é a única responsável. Portanto não é o caso de dramatizar violência urbana e chamar a polícia.

Melhor é assumir que vivemos num país detentor de uma enorme dívida social, sempre "rolada" e nunca paga, já agora com as vítimas da modernidade em aberto exercício de contra-violência (não de violência) fora de controle nos grandes centros e em rápida expansão para o interior. Admitir que este é o revide dos aculturados, dos empobrecidos, dos embrutecidos, dos desesperados, dos desinseridos nas oportunidades sociais, dos perdedores da guerra econômica. Saber que apenas duas categorias de homens públicos não percebem que o perigo vem descendo os morros: os irresponsáveis e os estúpidos.

Porisso não xingo mas, ao contrário, muito me compadeço do purgatório pós-moderno em que vivem esses nossos irmãos, julgando-me – como cidadão - no dever de participar da busca de caminhos para questão tão crucial, fazendo-o na intransigência de uma antiga frase de Gilberto Amado (Mocidade no Rio, 1912) que avisava: "Quem não gosta do Brasil não me interessa".

Semanas atrás circulou e-mail na chamada grande rede com argumentos interessantes sobre as razões subjacentes à pobreza e à riqueza das nações.

Questionava a razão da existência de países ricos e pobre.

De saída, com fartura de exemplos, a prova de que o diferencial não está na idade das nações.

O velho Egito dos faraós e a Índia milenar são apenas dois casos de culturas antiquíssimas que ostentam hoje enormes contingentes populacionais vivendo na miséria. Mesmo sendo a Índia potência nuclear. Enquanto isto, Austrália e Nova Zelândia, países com pouco mais de cem anos, tornaram-se desenvolvidos e ricos.

Grandes extensões territoriais também não asseguram riqueza a seus habitantes. Nós, brasileiros, apesar dos 8,5 milhões de km2, que nos colocam como o quinto maior país do mundo, pertencemos ao chamado terceiro mundo e, dentre os quatro maiores que nós, apenas USA e Canadá são desenvolvidos. Rússia e China enfrentam mais problemas que soluções.

O Japão, segunda potência econômica do globo, tem território muito pequeno (373 mil km2) com 84% dele tomado por montanhas e rochas vulcânicas - terras difíceis para agricultura ou pecuária. Parco em recursos minerais, enfrenta terremotos, erupções vulcânicas, tufões e maremotos, mas é uma ilha altamente industrializada, agregando valor a matérias primas importadas e gerando produtos industrializados de altíssima qualidade, mundialmente acatados.

Fartura de recursos naturais disponíveis, por igual, não explicaria a diferença entre ricos e pobres. Os árabes trotam sofridos camelos sobre as maiores reservas petrolíferas do mundo e, em muitos países africanos atolados na mais cava indigência, há ouro e diamantes. Nosso Brasil, tem Minas Gerais, Carajás, Serra Pelada, Recôncavo, Bacia de Campos, selva amazônica, invejável potencial hidro-elétrico, terras agricultáveis, maravilhosos 7.367 km de costa atlântica e... dívidas oceânicas!

A pequena porém abastada Suíça não precisa de mar para ter uma das maiores frotas mercantes do mundo. Também não tem cacau, mas produz o melhor chocolate do planeta. É campeã européia dos laticínios, ordenhando vacas e ovelhas em acanhados vales alpinos, desenvolvendo ainda uma agricultura modelar nos únicos quatro meses do ano que inverno permite. Geografia desfavorável e recursos naturais quase inexistentes não prejudicam a imagem de segurança e confiabilidade que fez da Suíça uma espécie de Caixa Forte do mundo. Assim a Bélgica, a Suécia...

- A inteligência do povo? Existiriam povos mais bem dotados para ao sucesso?

De novo, as evidências negam. Nesse mundo de intercâmbio diuturno, a cada instante se confere no contato com estudantes, executivos e cientistas estrangeiros que não há vantagem intelectual perceptível entre as diferentes nacionalidades e raças. Ao contrário, o que ocorre é migração de talentos das nações pobres para as nações ricas. Os países ricos importam "cérebros" (cientistas) dos países pobres, atraindo-os com bons salários e melhores condições de pesquisa.

Neste passo, e bem antes da exaustão dos exemplos, chega-se à EDUCAÇÃO como a verdadeira DIFERENÇA que vai influir no sucesso de uma nacionalidade. Porque a educação induz a mudanças de comportamento. Parece que nos países desenvolvidos prevalecem regras decisivas, das quais, sem muito critério, poderíamos destacar dez:

  1. Adotam moral, cultura e patriotismo como princípios básicos;
  2. Respeitam as leis e os regulamentos;
  3. Respeitam o direito alheio como limite do direito individual;
  4. Vivem em ordem e higienicamente;
  5. Valorizam a integridade pessoal;
  6. Amam o trabalho;
  7. Procuram superar-se;
  8. Observam pontualidade;
  9. São responsáveis.
  10. Assimilaram a dimensão econômica de poupança.

Sem dúvida, a observância de princípios como estes no quotidiano de um povo deve corresponder a passos de qualidade na direção do desenvolvimento.

Pena que educação não caia do céu.

Somos nós, cidadãos da classe média, herdeiros e beneficiários de uma sociedade escravista e patrimonialista, na qual se locupletaram nossos antepassados, os responsáveis pelo ônus da educação do nosso povo, por incutir-lhe valores sociais, éticos e morais, noção de cidadania, educação enfim.

E, em regime de urgência/urgentíssima, promover um franco aperfeiçoamento desta democracia incipiente, viciada e corrupta, atrelada a currais eleitorais e à compra de votos, para que ela passe a produzir homens públicos que encarem o ser humano como pessoa, não como simples eleitor, respeitando sua inteligência, sua dignidade, sua etnia, sua fé, sua expectativa de futuro.

Vamos rápido nos engajar em ações de solidariedade social que ajudem aos que nada têm a adquirir capacitação profissional, a adquirir emprego, auto-estima, instrução, a ter saúde e a estar em paz com a esperança. Para que todos os marginalizados de hoje se transformem em verdadeiros cidadãos participativos amanhã, autênticos sujeitos da história deste país amado, pátria-mãe generosa que pede apenas um aperto de mãos entre seus filhos.

Quando isto acontecer o resto virá por acréscimo porque o ser humano é, ao mesmo tempo, a riqueza e a chave de toda riqueza.

 

José do Carmo Rodrigues é advogado em Leopoldina



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