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Jornal Recomeço
Elaborado pelos presos da Cadeia Pública de Leopoldina - MG


EXCLUÍDO

Artigo de Raquel Pellizzetti
Historiadora e Coordenadora de Estágios - UFRJ


Um rapaz, apenas um rapaz! Custei a crer no que estava vendo no jornal da TV, em pleno horário dito nobre, de uma rede de grande porte.

Não vi a íntegra da reportagem, então, fogem-me alguns detalhes, mas o que ouvi e vi foi suficiente para me dar conta do caminho que estamos percorrendo, sem senso, sem tino... rumo certo para a exclusão absoluta, escura e funda.

É a globalização, pensei. Em nome de quê, senhores?! Da "mão invisível do mercado" a tudo regulando?! Que mão - ou seriam mãos? -, senhores?

O termo globalização carrega consigo uma conotação cruel e sórdida, até porque "subterrânea", "esperta", esgueirando-se pelo planeta e preparando, qual um predador faminto, o bote definitivo... É, chegaremos mesmo lá!

Vontade à estapúrdia e insólita história do rapaz. Ele fôra preso há uns oito anos, aproximadamente, por assalto à mão armada, acho. Pobre vai preso, culpado ou não. Por puro acaso, ao que parece, ele era mesmo culpado.

Muito jovem, não se contaminou com a convivência em ambiente tão hostil à recuperação de criminosos, felizmente. O considerado "bom comportamento" rendeu-lhe uma espécie de emprego, no Fórum da cidade, remunerado. Não me questionem. Não ouvi o nome do local.

Passaram-se os anos e o rapaz lá, trabalhando, mas... não estudou. Por que será? Talvez falta de orientação, sabe-se lá?! Quem sabe, sequer aventou esta hipótese. Pensava no futuro fora da prisão? Não sei. Deixou-se levar pelo tempo, trabalhando e amelhando alguns reais. Pouco, mas o suficiente para atender suas necessidades básicas, pelo que apreendi.

Após algum tempo, foi "agraciado" pelo regime semi-aberto e continuou a tocar sua vidinha. Trabalho, dormir na prisão, trabalho... e assim foi até que, contrariando o lugar comum de nossa justiça [sic], foi-lhe concedida a liberdade.

Liberdade?! Sentiu-se perdido, o rapaz. Cumprida a pena e liberto, perdeu o "emprego" no fórum. Justamente por ser alguém que transgredira regras sociais, fora encarcerado, mas também e pelo menos motivo, conseguira aquela fonte de renda.

O que fez o rapaz? Zonzo, atordoado, sem senso de realidade, perdera, também, a noção do que significa o termo "liberdade", em todas as suas acepções. O quê fez? Simples. Entrou com uma petição para ser novamente encarcerado. Insólito? É, mas foi exatamente o que ocorreu.

Lá está o rapaz, pedindo à própria justiça que o liberou por cumprir sua pena, para retornar à prisão. Segundo ele, desta forma continua a poder trabalhar no Fórum e garantir sua subsistência. Olhava a câmera sem pestanejar quando fez este comentário.

Está convicto, o jovem, de que a única alternativa que lhe resta e ficar preso. Na rua, com maus antecedentes e sem formação, tantos anos passados, não vê saída.

Ele não vê ou não há? Pela lógica da "globalização" não há mesmo e sabemos disto! Por isso quer ele retornar à prisão. Lá, pelo menos, ele é "humano" porque pode trabalhar e receber alguns tostões.

Não faço idéia do que a justiça entenderá ao julgar a petição do rapaz, mas, certamente, não há de considerá-la plausível. Ele cumpriu a pena e está em "liberdade". Que liberdade, pergunto?!

Pois é... pois é, penso eu. Este é um dos melhores exemplos que posso oferecer do que penso que está ocorrendo com todos nós: o caminho duro e inexorável para engrossar a massa de excluídos que aumenta, a cada dia, exponencialmente.

E o rapaz? E o rapaz?! Nada. Mais um, dentre milhões. Só mais um...

Globalização e exclusão... rima perfeita. Só.



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