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Jornal Recomeço
Elaborado pelos presos da Cadeia Pública de Leopoldina - MG


Réquiem por um condenado

Maria da Glória Costa Reis
Publicado no site Aprendiz


"Assim repartimos o pão da nossa cela e a luz dos nossos sonhos. Agora somos um número de presos, talvez um número no cemitério. Muito antes, um número qualquer na ordem da mesa de um promotor."
Detento Washington Fernandes Cruz - Jornal Recomeço


Ricardo Alexandre de Jesus, de 22 anos, morreu carbonizado na rebelião em São Lourenço, Sul de Minas, dia 18/07/02.
Foi apenas uma noticiazinha, lá em baixo, na seção Cidade do jornal mineiro O TEMPO. Como muitos no presídio, Ricardo tinha o sobrenome Jesus, provando que Jesus não é lá muito sensível a essas homenagens que recebe das mães, querendo proteger seus filhos. Não conheci Ricardo, nem conheço a sua história, mas escrevo para ele e para todos os jovens que vêm morrendo nas prisões e os que vão morrer, se o sistema não se humanizar.

“Detento morre carbonizado em rebelião no Sul de Minas”, diz o título. A notícia é sem importância, jamais vai incomodar o Presidente da República, Senadores, Deputados, o Prefeito de São Lourenço, os seus vereadores, o Delegado da cadeia, o Juiz que assinou a prisão de Ricardo e muito menos o Procurador que lhe negou o Habeas Corpus, seis dias antes da sua morte.

Afinal, trata-se apenas de assinar um papel, a vida do preso não é responsabilidade do judiciário. A não ser que seja o Belo, que teve até o Secretário de Segurança do Estado do Rio de Janeiro presente na sua detenção para preservar sua integridade física. Ou o Juiz Nicolau que teve a pena reduzida por ter sido ofendido e humilhado pelas piadas dos brasileiros. Gente fina é outra coisa, como sabemos.
Mas, Ricardo Alexandre, de 22 anos, morreu na prisão, carbonizado, sozinho, no meio do fogo, cercado de grades.

Que sujeita chata sou eu que não acha isso sem importância e estou muito incomodada com a notícia. E mais, está doendo terivelmente. Não me acostumo com a morte de jovens, ainda mais totalmente indefesos, dentro de uma prisão. É uma tremenda covardia. Além disso, penso neles, mãe, pai, irmãos, tios, primos e até amigos recebendo a notícia: “Ricardo Alexandre morreu”.

Como estará a mãe com a notícia? Os jornais nunca falam das mães dos presos. Sobretudo, as dos mortos, que são tantos. Há poucos dias, assisti pela televisão a uma cena que me derrubou: uma rebelião no presídio em Juiz de Fora e– coisa rara – o repórter na porta, entrevistando os familiares. Uma mulher, não sei se velha de tempo ou sofrimento, com o rosto contorcido pela dor, balbuciou, mal se ouvindo a voz com o barulho do tiroteio lá dentro: “É meu filho que está aí dentro, meu único filho”. Pobres mães desesperadas na porta das prisões!
Penso, também, se o Estado, como nos filmes de guerra - já que dizem que é uma guerra – não deveria ter a delicadeza de enviar um seu representante para dar a notícia à mãe, comunicando a morte do filho de 22 anos, tombado em campo de guerra e transmitindo a condolência oficial. É muito pouco, mas num país civilizado, seria o mínimo que os responsáveis pela custódia de Ricardo Alexandre deveriam fazer.

Lembrei-me de um outro jovem - isso não me sai da cabeça - que morreu entre os 111 do massacre no Carandiru, aguardando julgamento pelo roubo de um relógio Rolex. Sei que isso é motivo suficiente para se prender e até matar uma pessoa no Brasil. Aqui não é como no regime Talebã, onde cortam as mãos. Aqui se corta a cabeça. Mas, mesmo sabendo que o rapaz roubara um Rolex, muito caro e chique na época, fiquei muito sofrida, porque, como disse, não gosto que matem os jovens. De repente, podia-se achar uma outra saída, sem ser a morte. Ele devolveria o Rolex, o dono trocaria por um relógio mais simples e com a diferença, quem sabe, ajudaria o rapaz a estudar para conhecer coisas bem melhores do que a posse de um Rolex.

Lembrei-me também da Clarice Lispector, que sofreu com a morte do Mineirinho, aquele famoso bandido na época. Ela até escreveu uma crônica, “Mineirinho”, iniciando assim:

“Ë, suponho que é em mim, como um dos representantes do nós, que devo pro­curar por que está doendo a morte de um fascínora .Essa justiça que vela meu sono, eu a repudio, humilhada por precisar dela. En­quanto isso durmo e falsamente me salvo. Nós, os sonsos essenciais.”

Até quando vamos continuar a ser os sonsos essenciais? Até quando, em nome do combate à violência, tal qual nos EUA depois do 11 de setembro, vamos prender suspeitos e pequenos infratores, entupindo nossos cárceres de jovens e deixá-los lá para morrer de rebelião ou de doença?

Ao menos, às mães, os responsáveis deveriam explicar a morte dos filhos. Que justiça é essa que tira o filho de uma mãe e o entrega morto? Afinal, o estado pode matar?

Cada época, dependendo da classe dominante, elege os que devem morrer. Os europeus, pisando na América, logo determinaram que os índios, habitantes milenares, deviam morrer para que eles tomassem posse de tudo e criassem a magnífica civilização coca-cola. Os nazistas mataram judeus, comunistas e deficientes físicos para sobreviverem só os puros da raça ariana. Durante o regime militar no Brasil, os jovens sonhadores, classificados como subversivos, deveriam desaparecer para preservar a ordem social vigente. Atualmente, a máquina mortífera elegeu os pobres, sucata inútil da globalização.

Para que servem os pobres? Na lógica do “Consumo, logo existo”, eles não existem. Então é preciso eliminá-los. Como? Muito fácil. Cadeia neles. Há um código penal feito especialmente para pobre, com artigos para qualquer descuido. E assim, cumpre-se a História.

Certa vez, o inesquecível jornalista Aloísio Biondi, morto faz algum tempo, escreveu um artigo na Folha de São Paulo provando por A mais B que “somos todos assassinos”, que a sociedade apenas contrata os carrascos para não sujar as limpas mãos de sangue. Até hoje, sua voz ecoa no deserto. Encarrega-se a imprensa de promover o álibi para o assassinato em massa: o álibi da violência. Em nome dela, pode-se matar a torto e a direito.

Nossos jovens, nossos homens, nossas mulheres, brasileiros pobres e negros estão sendo dizimados em presídios medievais. A Santa Inquisição está a todo vapor, serão punidos todos os heréticos da nova ordem econômica.

Lembrei-me de uma amiga minha, diretora da APAE na época, que convidou um delegado para fazer uma palestra sobre drogas para seus alunos, e ela ficou muito brava porque o conhecedor da lei disse às crianças “que tomassem muito cuidado quando crescessem porque, sendo pobres, fatalmente, por qualquer coisa, iriam parar na cadeia”. Quando ela me contou indignada, ficou surpresa com a minha reação ao lhe dizer que, pelo menos, ele foi verdadeiro e alertou as crianças para a realidade. Concordam?

A morte de Ricardo Alexandre de Jesus, carbonizado numa prisão, me fez pensar nisso tudo. E também me fez lembrar do meu amado Rubem Braga, que se vivo estivesse, seria uma voz destoante na imprensa atual e escreveria em um dos seus artigos:

“Façamos uma política sábia, perfeita, materialista; mas deixemos uma pequena margem aos inúteis e aos vagabundos, às aventureiras e aos tontos porque dentro de algum deles, como sorte grande da fantástica loteria humana, pode vir a nossa redenção, a nossa glória”.


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