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Jornal Recomeço
Elaborado pelos presos da Cadeia Pública de Leopoldina - MG


A prosa das prisões
Ex-detento, co-autor de música de sucesso, estréia na literatura com obra sobre o cotidiano da cadeia

Artigos publicados na Revista Época
e no Jornal "O Estado de São Paulo"


Os versos do ex-presidiário Josemir José Fernandes Prado ficaram famosos com o rap Diário de um detento, um dos grandes sucessos do grupo Racionais MC’s. A música ganhou até videoclipe, premiado no Video Music Brasil 1998. Agora o letrista resolveu arriscar-se na prosa. Em Diário de um detento: o livro contará a experiência de quatro anos vividos em presídios paulistas. O lançamento será em maio, na Bienal do Rio de Janeiro, pela Labortexto Editorial. Na prisão, Josemir virou Jocenir. Com esse nome assina a obra de 190 páginas.

Representante da classe média, Josemir chegou a ter três lojas de material elétrico em Osasco, na região metropolitana de São Paulo. A prisão é um capítulo nebuloso de sua biografia. Foi detido na frente do depósito em que o irmão Márcio mantinha cargas roubadas. "Não fui preso injustamente, pois sabia o que ele fazia", admite. "Mas é muito ruim cumprir pena por algo com o qual não se tem a menor relação."

Controlada a revolta inicial, Josemir aprendeu a sobreviver à cadeia. Bem mais preparado que a maioria dos companheiros, com o curso superior incompleto de administração de empresas, resolveu se oferecer para redigir cartas, versinhos e dedicatórias. A fama de boa pena chegou aos ouvidos de Mano Brown, líder dos Racionais e ídolo inconteste dos presidiários.

O conhecido rap rendeu ao letrista R$ 5 mil. Diário de um Detento: o Livro, descrito pelo médico Drauzio Varella como um relato cortante, foi produzido antes de o autor ganhar liberdade. Na Penitenciária de Avaré, em São Paulo, Josemir esperava a madrugada para tomar emprestados os óculos que um colega usava durante o dia. Um holofote da muralha do presídio clareava a cela. Ele aproveitava para escrever.

Mas não foram só inocentes versos ou contundentes letras de protesto o que Josemir fez. Ele redigiu o estatuto do Comando Democrático da Liberdade, o CDL. Para o ex-detento, facções como o CDL ou o Primeiro Comando da Capital, o PCC, nada mais são que turmas. As rebeliões seriam questão de sobrevivência psicológica. "Se nesses movimentos morrem 100, mas dois ou três conseguem fugir, eles acham que vale a pena." No livro, as atrocidades cometidas nas prisões são narradas com as tintas de quem experimentou a crueza dos cárceres do Carandiru. Fora das celas desde 1998, Josemir continua desempregado.

Artigo de Débora Crivellaro, publicado na Revista Época em 16/04/2001


Diário de um detento

Josemir Prado

"Cheguei à cadeia pública de Osasco no dia 12 de abril por volta das vinte e duas horas. Uma surpresa me aguardava: eu fora recomendado, como se diz no vocabulário carcerário.

À minha frente, dois carcereiros queriam fazer a revista em mim e em meus pertences. Ao tirar a roupa, comecei a ser agredido de forma violenta. Socos no estômago, pontapés no rosto. Os caras batiam duro, provavelmente conheciam algum tipo de arte marcial. Com um pedaço de madeira nas mãos, um deles mandou que eu me virasse para a parede e levantasse um dos pés.

Tortura. Já com o corpo todo dolorido, obedeci. Como se pegasse a pata de um cavalo, pegou meu pé, desferiu uma série de golpes na sola até ficar tudo adormecido. Os covardes bateram nos dois pés. Ao final da sessão de tortura olhei para baixo e um inchaço se pronunciava. Mandaram que eu me vestisse.

Com dificuldades, obedeci. Quase não conseguindo caminhar devido aos ferimentos nos pés, acompanhava os carcereiros que me levavam para o X-9 daquela cadeia pública. Diziam durante o percurso que na cela que iriam me colocar só havia exu. Queriam dizer que lá estariam os presos mais perigosos e violentos."

Texto publicado no Jornal "O Estado de São Paulo" em 23/07/2001



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