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Elaborado pelos presos da Cadeia Pública de Leopoldina - MG


GUERRA BRASILEIRA
Polícia para quê?

Artigo de Ana Beatriz Magno e Marina Oliveira

Relatório inédito mostra que policiais do Rio e São Paulo mataram 1.295 pessoas em 2002, cinco vezes mais do que a polícia americana nos Estados Unidos

Estamos em guerra. Dados do relatório Direitos Humanos no Brasil 2002 divulgado ontem retratam um país sitiado pela violência do Estado. De janeiro a agosto deste ano, a polícia do Rio de Janeiro matou 592 pessoas. Já os policiais de São Paulo liqüidaram 703 brasileiros em dez meses, segundo o documento de 200 páginas elaborado pela organização não-governamental Justiça Global.

A gravidade dos números fica evidente quando comparados com índices dos Estados Unidos, nação com criminalidade elevada e polícia com fama de violenta. Os policiais norte-americanos assassinaram 367 cidadãos em todo o território nacional. Significa que para uma população 25 vezes maior do que a dos estados do Rio e de São Paulo juntos, os americanos mataram cinco vezes menos que os fluminenses e paulistas.

''Os números brasileiros são de uma nação em guerra'', resume James Cavallaro, coordenador da Justiça Global. ''A policia do Rio e São Paulo mata mais do que os exércitos de países em guerra explícita como Israel e Palestina''. O que mais preocupa Cavallaro é a relação entre os números e a cobrança da sociedade por medidas energéticas contra a criminalidade. ''Diante da pressão o mau policial se sente autorizado a sair para matar''.

Infância perdida
Nas favelas cariocas, temer tanto o bandido quanto a polícia é rotina. ''Para mim tanto faz: tenho medo dos dois'', desabafa a doméstica Consuelo Nunes, moradora de Duque de Caxias, na Baixada Fluminense. ''Morar aqui é morar no meio da guerra. Tenho pena das crianças.'' Dona Consuelo está coberta de razão.

Nada menos do que 3.937 crianças e adolescentes morreram na cidade do Rio por ferimentos a bala entre dezembro de 1987 e novembro de 2001. No mesmo período, em Israel, 467 menores foram assassinados. Significa que, num país historicamente em conflito armado, mata-se oito vezes menos meninos e meninas do que no principal ponto turístico da nação da cordialidade.

A juventude é vítima e agente da violência. Existem no Brasil 11.835 adolescentes privados de liberdade. Passam os dias e as noites nas 74 unidades de internação, conhecidas no passado como Febens, e cenário de uma rotina que multiplica a criminalidade em vez de corrigí-la.

Pesquisa inédita feita pela Agência de Notícia dos Direitos da Infância ( Andi), em parceria com o Ministério da Saúde, traça um perfil desses jovens e mostra o quanto estão expostos ao crime organizado e ao tráfico de drogas.

Apenas 8% dos internos estão presos porque mataram. Cerca de 83% perderam a liberdade porque se meteram em roubos e assaltos. A conexão entre o crime e a miséria é evidente. Os garotas das Febens são pobres - 88,5% vêm de famílias com renda inferior a dois salários mínimos. A intimidade com cocaína e maconha é assustadora.

Em São Paulo, por exemplo, apenas 12% dos internos de três unidades do Complexo do Tatuapé disseram jamais ter experimentado alguma droga. Já 83% dos adolescentes admitiram que fumam maconha e 57% que consomem cocaína.

''É impressionante porque a maioria dos adolescentes tem dúvidas sobre as drogas'', explica Nanã Catalão, coordenadora da pesquisa que recolheu 284 perguntas de 90 adolescentes internos em duas instituições. ''Não se pode esquecer que os meninos e meninas privados de liberdade são antes de tudo adolescentes''

Se a curiosidade sobre temas como sexualidade e drogas os faz semelhantes a qualquer adolescente, o uso massivo de tóxicos e a falta de esperança mostra que os meninos de Febens são pernsagens centrais da guerra brasileira: 50% deles acham que vão morrer de tiro, pela polícia.

''Quem está privado de liberdade passou por processo traumático de violência em que tanto o agredido como o agressor saem marcados. Pensar o contrário é não acreditar na humanidade'', ensina o padre Julio Lancelotti, coordenador nacional da Pastoral do Menor.

MISÉRIA PARA QUEM?

Os extremos da riqueza e da pobreza nunca estiveram tão distantes. O lado desvalido do Brasil tem cor preta ou parda e sexo feminino. No campo dos abastados, a pele é alva e os homens dominam. O quadro traçado para o país é bem parecido ao do resto do mundo. O relatório anual das Nações Unidas sobre a situação da população mundial, divulgado ontem, denuncia o aumento da concentração de renda.

Em nível mundial, as disparidades de renda e de acesso aos recursos têm se acentuado. A diferença entre os ganhos dos 20% mais ricos e dos 20% mais pobres do planeta mais do que dobrou entre 1960 e 1994. Os miseráveis no Brasil chegam a somar um terço da população - os menos pobres do grupo passam o mês com um salário mínimo (R$ 200). Em números absolutos, formam uma legião de 49 milhões de pessoas. Isso sem contar os 5 milhões de brasileiros indigentes - que declararam ao IBGE não possuir qualquer fonte de renda. Dentro do país, mais disparidades. No Nordeste, a proporção de pessoas com ganhos de até um salário mínimo chega a 51%, enquanto no Sudeste fica em 18%.

As mulheres também predominam no extremo da pobreza. Segundo a ONU, na última década aumentou a diferença entre os gêneros. O relatório tirou a conclusão com base em observações sobre as relações de poder, sobre a saúde e a sobre a forma como homens e mulheres distribuem seu tempo. Elas trabalham durante mais horas, mas pelo menos metade da jornada é gasta em atividades não remuneradas.

No Brasil, nascer com a pele escura também aumenta as chances de uma pessoa ser miserável. Entre os que vivem com rendimento familiar per capita de até meio salário mínimo (R$ 100), 77,1% se identificaram como pretos ou pardos. Os brancos representam apenas 34,8% desse grupo. Nas unidades de internação da Fundação do Bem-Estar do Menor (Febem), 88% dos meninos nasceram em famílias com renda inferior a dois salários mínimos (R$ 400). E só quando matam, ou aparecem em estatísticas brutais sobre concentração de renda, prestamos atenção na realidade desigual do país que os criou. Uma nação de extremos.

FRONT

As polícias do Rio de Janeiro e de São Paulo liquidaram 1.295 pessoas em 2002. Os policias americanos, em todo o território os EUA, mataram 367 cidadãos.

Entre dezembro de 1987 e novembro de 2001, ferimentos à balacausaram a morte, só na cidade do Rio, de 3.937 crianças e adolescentes.

Em Israel, no mesmo período, os conflitos armados tiraram a vida de 467 menores de 18 anos.

Publicado no Correio Brasiliense em 4/12/2002.



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