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Jornal Recomeço
Elaborado pelos presos da Cadeia Pública de Leopoldina - MG


Reflexões de batedores de carteira
Antônio Ermírio de Moraes

Com a crescente onda de crimes do colarinho branco e das impunidades, o que devem pensar os presidiários que cumprem suas penas nas cadeias superlotadas, amontoados uns por cima dos outros, em cubículos que mal permitem respirar?

Para eles deve ser intrigante que, pelo fato de não terem tido o privilégio de cursar uma universidade, têm de amargar uma cela comum, fétida e apertada, enquanto os que tiveram a sorte de se diplomar desfrutam do direito de pagar suas penas em cômodas celas especiais, algumas das quais tão equipadas quanto as mansões onde moram.

Deve ser irritante também observar que os autores dos grandes desfalques à nação e responsáveis pelo agravamento da situação dos mais pobres nas escolas, centros de saúde e hospitais públicos conseguem fugir das autoridades nas barbas da polícia, instalando domicílio nos lugares mais agradáveis do mundo, desde Londres, passando por Paris, Côte d´Azur, Mônaco, Miami e San Francisco, e chegando ao Taiti e outras belas ilhas do Pacífico.

Deve ser alucinante, igualmente, verificar que a grande maioria dos brasileiros que são condenados têm origem humilde, sendo que, muitos deles, praticaram crimes infinitamente menores do que os cometidos pelos campeões dos golpes brancos. Até hoje não se tem notícia que os Anões do Orçamento e outros corruptos tenham devolvido o dinheiro que desviaram ou que os beneficiados com as polpudas comissões em obras públicas e conhecidas privatizações tenham sido investigados.

Aos olhos dos batedores de carteira, o Brasil é o país do abafa. Os grandes crimes são sempre diluídos na complexidade dos procedimentos judiciais e empurrados para o canto do esquecimento público.

Bem diferente é a situação dos países mais avançados. É claro que lá também há corrupção, crime e sonegação. A diferença está no número de oportunidades que se abrem para infringir a lei e as portas que se fecham para os infratores por força de julgamentos e condenações que colocam todos nas mesmas cadeias e celas, com os demais meliantes.

O clima de privilégio e impunidade que impera no Brasil está dilacerando os valores morais da sociedade. As crianças e jovens estão sendo criados em um ambiente no qual se enaltecem as condutas deploráveis. Com a justificativa de que os serviços públicos são ruins, sonegar impostos vira esperteza. Com a desculpa de que os grandes roubam, assaltar nas esquinas torna-se ato de rotina. Com os maus exemplos dos fugitivos abastados, esconder bandidos passa a ser ato de piedade.

Os males da impunidade vão muito além dos prejuízos materiais. Eles corroem o caráter das pessoas. O Brasil não pode esperar mais um só dia para fazer uma reforma nos seus sistemas de fiscalização, polícia e justiça que coloque no mesmo plano os delinqüentes poderosos e os batedores de carteira.

Publicado na Folha de São Paulo, 11/04/99



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