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Jornal Recomeço
Elaborado pelos presos da Cadeia Pública de Leopoldina - MG


A JUSTIÇA ACIMA DE QUALQUER SUSPEITA
Geraldo Lopes *

Os cidadãos que compõem a justiça brasileira estão acima de qualquer suspeita. Apesar da punição imposta ao juiz Nicolau dos Santos Neto, ex-presidente do TRT paulista, acusado do desvio de mais de 150 milhões de reais dos cofres públicos, ainda parece utopia tentar desvendar o enigma que cerca a magistratura.

Diz a sabedoria popular que "falar mal de homem de saia no Brasil dá cadeia". Posto que além de sábia, é prudente, essa sabedoria não declina os nomes, mas desconfia-se que ela se refere aos padres, porque rezam missa de batina, e aos juízes, que julgam de toga. Só em arte, porém, isso é verdade no Brasil de hoje. Já se fala mal da igreja, assim como se critica abertamente os militares, a imprensa, os médicos e o presidente da República. Não é que essas instituições, detentoras de um forte espírito de corpos, gostem dessa prática. Mas é justo reconhecer que elas estão aprendendo com a democracia, estão aprendendo que a melhor maneira de se aprimorar o todo é corrigir suas partes. Por que então esse louvável espírito, que a abertura política mais ou menos generalizou, está custando tanto a penetrar no espírito de corpo da justiça? Por que, ao se criticar um juiz, tem-se o mesmo temor que se tinha anos atrás, ao criticar um militar?

Fiquei perplexo ao indagar de conhecido criminalista carioca, se existia corrupção no fórum do Rio. "Sei que existe, mas não falo nem em off, e se atribuir a mim qualquer declaração nesse sentido, além de desmentir publicamente vou processá-lo por injúria, calúnia e difamação." O off é uma invenção americana que permite ao entrevistado dizer tudo o que sabe, contando que as declarações não tenham nome ao serem publicadas. Quando se escreve sobre a justiça, nem mesmo o off funciona. Outro renomado advogado, o qual consultei, prometeu falar desde que fosse em off. Quando revelei o tema, ele roeu a corda alegando que sobre a possibilidade de corrupção na justiça, nem em off tinha coragem de falar.

É uma pena que a comunidade jurídica funcione assim. Como informou, em off, um de seus mais ilustres representantes, "os casos suspeitos não são a regra do comportamento da justiça brasileira". Se não, por que não exibi-los à sociedade? Na democracia, essa ainda é a melhor maneira de evitar que as partes indesejáveis contaminem o todo. A regra vale também para a polícia, seja lá qual for a corporação.

Não é natural, nem justo, que a sociedade não tome conhecimento das mazelas, quer no judiciário ou nas corporações policiais. Afinal, é ela, a sociedade, que através do cidadão comum, mantém, além dos policiais, juizes, desembargadores e a justiça funcionando. Qualquer outra forma de tratamento do tema excluindo a transparência, significa a manutenção do espírito de corpo que, em última análise, continua apresentando a justiça como uma instituição acima de qualquer suspeita.

Artigo retirado do site http://www.mundolegal.com.br


Geraldo Lopes é jornalista e trabalhou em grandes jornais como: O Globo, Diário de Notícias, Jornal do Brasil e Última Hora, além das TVs Globo, Tupi e Record. É autor dos livros "O Massacre da Candelária”(Scrita editorial - 1994) e “O Sistema” (editora Razão Cultural-2000). Vencedor do prêmio Jabuti 2001 na categoria não ficção com o livro "O Sistema - Corrupção e violência nas cadeias brasileira".


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