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Jornal Recomeço
Elaborado pelos presos da Cadeia Pública de Leopoldina - MG


PRISIONEIRO DO TEMPO - Mais um sobrevivente
Rozivam Frankilim de San'tana*

Texto de um jovem detento.

Retrato falado da vida do detento visto somente pelos olhos de quem vive no mundo do cárcere e sonha um único sonho: a "LIBERDADE"

Começo este texto tentando mostrar um pouco da série de precariedades em que funciona o nosso Sistema Penitenciário Brasileiro. Homens e mulheres que se julgam a executar os direitos e dar a assistência necessária ao preso e nada fazem quanto a isso.

Usando promessas mentirosas e sem nenhum interesse, só aumentam a revolta daqueles que se encontram em um lugar com as piores condições possíveis.

Existem muitos que ao reivindicarem seus direitos e receber tão pouca atenção, não conseguem resolver seus problemas. A revolta, o sofrimento e a dor são as únicas coisas que não faltam, acumulados em muitos esperando uma única oportunidade para que como numa erupção sejam jogados para fora, quase sempre consumido pelo próprio sistema.

E o que é oferecido para que isso não domine a sua mente e o leve à loucura?

Talvez algum tipo de entorpecente ajude a aliviar. Mas, não consigo entender por que somos chamados de animais, de loucos e outros nomes.

Sabemos que os criadores dessas pessoas que são conhecidos como governantes só alimentam a destruição.

Um dia aqui sobrevivido é uma grande vitória pois nunca sabemos o dia de amanhã. Sempre pode ocorrer uma surpresa. Em seu subconsciente você fica ligado a uma única coisa "Liberdade".

Nem sempre estamos acompanhados pela sorte, por isso nunca podemos errar. Em nosso país somos vistos pelas "telas" das casas, somente, na prática de infração. Mas ninguém fala sobre o sistema desumano que nada oferece em benefício do preso, que aqui é chamado "Reeducando".

A única coisa que temos aqui é a saudade e, ainda corremos o risco de perder o pouco que chegamos a conquistar na vida.

Tenho nas mãos neste momento minha única arma que acho capaz de combater as inverdades que falam sobre nós. Talvez alguém um dia perceba que os chamados "monstros" aqui presos também tem idéias, sentimentos e projetos.

Talvez nunca acreditem, pois aos olhos dos grandes, não passamos de números, e esses números aumentam e superlotam nosso sistema.

Mas, semelhante aos números, temos a soma dos nossos ideais e às vezes conseguimos ajuda para conquistar um espaço, mas que em breve será fechado, por aqueles que não acreditam em nosso valor.

Cadeia, passagem triste na vida de um homem pela discriminação e condição de vida oferecida para quem nela vive.

Isso aqui, esse antro de maldade, é a verdadeira fábrica da destruição do mundo, pois enquanto houver homens que iludem o nosso povo prometendo resolver os problemas do país, ao invés, de melhorias transformam em um verdadeiro lixão o pouco que resta do nosso país.

Ao tentar colocar em palavras tudo o que vemos e passamos aqui, sinto um aperto no coração, sabendo que para a sociedade o meu valor aqui é "zero". Tento levantar minha auto-estima e me auto valorizar pelo que sou, pelo que posso e vou fazer se um dia puder.

Nesse lugar sombrio sonho com a Paz.

Paro por aqui e pergunto: Somos nós os culpados pelos crimes? No mundo em que somos julgados pelos mesmos pecadores, só nos resta esperar a Justiça Divina.

"Só em Deus busco força para lutar."

* Detento cumprindo pena em Potim l na cidade de Aparecida do Norte em São Paulo.



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