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Jornal Recomeço
Elaborado pelos presos da Cadeia Pública de Leopoldina - MG


Somos Todos Culpados
Silas Corrêa Leite*

- Somos todos CULPADOS! – Culpados pela violência nossa de cada dia, urbana, trivial, assimiladíssima na rotina cotidiana – e somos culpados por votar em tipos políticos inumanos que, promovendo a impunidade satanizada com o erário público, favorecem a especulação saranga, o roubo generalizado, a corrupção endêmica (institucionalizada em todos os níveis), por causa de suspeitas privatizações-roubos, de cantadas reformas pífias que não reformaram nada, mas têm o nojento verniz estatal de uma globalização estúpida, favorecendo o império do mal com estofo financeiro de agiotas do capital estrangeiro.

-Somos todos CULPADOS pelos milhões de desenganados, os excluídos sem terem um canto para o sono e o sonho, os que vivem e se alimentam do esgoto social, comendo as sobras do que cai das mesas dos ricos insensíveis. Temos medo do olho da realidade – a nossa consciência. O arquétipo do juízo final ainda não nos doeu? – Temos medo de pedintes, dos povos das ruas, medo dos faróis fechados, das freadas bruscas, das balas perdidas – não conseguimos compreender o fulcro sistemático da violência a partir da resultante transversal de um sórdido plano econômico que partiu das mentes débeis do FMI, financiando a miséria (e a decadência social) do nosso Brasil, quintal do terceiro mundo...

-Somos todos CULPADOS e queremos gritar, praguejar, pelos seqüestros, assaltos, viciados em drogas, furtos. Votamos em larápios e queremos gritar contra os que assaltam com arma branca, tão infame e vil quanto aqueles que se elegeram soberbos, políticos vaidosos e posudos com rabos de ratos, topetes de hienas e pés na lama do arbítrio? Que mentira nos mentimos, sempre? (Quando somos seqüestrados, xingamos o governo incompetente. Mas, e o seqüestro de nosso sonho impossível, de nossas esperanças-chaves preconizadas por um ex-sociólogo, ex-marxista, ex-ateu? – Camaradas, SOMOS TODOS REFÉNS do modelito econômico que gera lucros improbos, deixa os ricos cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres – mas, como vesgos, partidários das inconseqüência que entendemos que nem nos dizem respeito, estamos realmente no bonde da imbecilização coletiva, quando cândidos comemos pacotes econômicos efêmeros e arrotamos caviar, em detrimento de que, por nossas culpas e atos, sempre, historicamente alijamos a pobre Periferia S/A.

-SOMOS TODOS CULPADOS quando vemos a favela lá do alto crescer de um tempo para outro, e vir ganhar o efeito estufa do asfalto superfaturado, quando os sobreviventes dos morros vêm mesmo pilhar supermercados, e nós, pobres de nós, cobaias de Deus que elegemos um político de ocasião para distribuir rendas, tristes vemos o arigó especulando no seu mísero núcleo de abandono (fim de governo) com o seu clube de egos, e as práticas danosas dando lucros insanos e amorais a banqueiros que ou seus testas-de-ferro com pirações financeiras exóticas e de altos custos sociais...

-Somos Todos Culpados Pai, perdoa, mas nem temos consciência direito de que sabemos o que fazemos... E não sabemos.

Pensamos mal, amamos mal, vivemos mal (vegetamos) – Afasta de mim esse cálice, Pai! – porque temos medo do torneiro mecânico, do zelador paroara, do porteiro gabiru latino, do síndico imigrante, do flanelinha sem dentes, do imberbe garrincha manquitola que vende cartões de zona azul. Nosso sortimento de neuras já ultrapassa o humanamente crível, e o vesgo rinoceronte político que elegemos nos logrou com camufladas máfias, disfarçadas quadrilhas, pencas de falcatruas, e já vivendo o desmanche do estado público ainda, tolos, cantamos modernidades como se arautos do Brasil-Carandiru por atacado, e o tipo, janota e boçal, falastrão, que elegemos, poliglota pra consumo, boa pinta, sem barba e com vários diplomas, deu um chapéu em nós, em nossos amigos empresários, em nossos filhos sem emprego, em nossa empregada doméstica sem luz no fim do túnel – o feitiço sempre vira contra os aprendizes de feiticeiros – e criticamos os pobres mestre que tentam nos substituir na medida do possível, depois cobramos do médico soluções mágicas porque nos perdemos de nós como bananeiras dando goiabas, enquanto o hediondo político ainda tenta eleger um sucessor que, por sinal é até melhor do que ele, mas em seu rastro tem pegada de rato branco com luva de pelica falsa...

-Somos todos culpados – E o Risco Bush? – Sim, irmãos, Marx está morto? E o Fordismo? Freud então, nem pensar. Estamos todos perdidos...e não temos coragens limpas.

Cantemos, irmãos, cantemos: O Rio de Janeiro continua lindo. Pois é, prenderam o Bello, mas não fizeram o mesmo com todo o aparato estrutural dos marechais que bancam o narcotráfico na carioca e maravilhosa mais bela cidade do mundo.

Que hipocrisia é essa, gente amada? Porque temem o cerco à orgia de drogas? Porque estamos todos comprometidos, de uma forma ou de outra, direta ou indiretamente, e, por tabela, somos todos culpados?. Quem é o sócio do contrabando informal, da droga para os ricos? Mãos sujas.

Que mentira deslavada é a caolha justiça de araque?

-Somos todos CULPADOS, todos manés, e como refis (receptáculos) – a massa de manobra com rótulo de um new rich – posudos achamos que somos o que não somos, que pensamos (não pensamos...), que somos inteligentes, formados, espertos, que votamos bem, ora essa, que nos enxerguemos direito, pobres de nós... Vejam, a cidade, o estado, o mundo está cada vez pior. À quem queremos lograr?

Tomamos as atitudes certas? Falso.

Votamos no tipo certo? Errado. Votamos burramente.

Então porque continuamos pagando esse alto preço? Que país é esse? Não temos noção do ridículo? Que falta de bom senso...

-Somos Todos Culpados – Somos rebeldes mas de colarinho branco, revolucionários de elevadores, radicais etílicos, com nossas malogradas conquistas miseráveis, nossas bobas pizzas de lágrimas, nosso fermento vencido, enquanto isso a pobreza assombra, assoma e nos enfrenta porque o instinto de sobrevivência é mesmo tribal, e, muito pior que nossos muros, câmeras, alarmes, identificadores de chamadas, o crime organizado substitui gradativamente o estado falido. Um sinal dos tempos?

-SOMOS TODOS CULPADOS. Se morre um preto, um pobre, um nordestino, um operário, tudo bem, faz parte. Foi Deus quem quis. Mas, ai Deus, se é um branco, afilhado nosso, aí o bicho pega, ficamos histéricos. Fazemos guerra de nervos, movimentos pela paz, ligmos para amigos importantes, fazemos abaixo-assinados, xingamos o ministro, o secretário, usamos branco, pichamos a banda podre que ajudamos a eleger. Insensíveis e falsos. Que cristianismo é esse? Que Deus é esse? Fogueiras da vaidade a parte, somos todos usados nesse Brazyl que não conhece o Brasil, como cantou a sagrada Elis Regina...

-Somos todos CULPADOS, como órfãos de Marx, órfãos de Geisel, órfãos de nosso capitalhordismo americanalhado... -Que pátria dos evangelhos queremos ser? Que berço esplendido é esse? Que país do futuro é esse cheio de passageiros da agonia que vêm do passado nos mostrar o futuro num museu sem grandes novidades?

E vamos-nos, alvissareiros, serelepes e coiós para nos idiotizarmos etilicamente em Miami ou Cancun...

-Somos todos culpados, MINHA MÃE, somos todo culpados. O Muro das Lamentações chora e erguemos andaimes e não as mãos para o céu pedindo socorro em preces laicas. As baleias estão em extinção e comemos potes de coisas artificiais. O degelo na Patagônia é tão longe, o milagre da santa do espelho é um agente químico adulterado, e, mesmo os E.Ts. são vigaristas do passado que se passam por imagens do futuro para tongos messiânicos ou bruxos falsos desses tempos de uma suspeita Nova Era para inglês ver.

-Somos todos CULPADOS - O dólar em alta e nós trocamos nossa grana pau a pau por ele. Fomos enganados e re-elegemos o enganador, dando aval e voto de confiança... Como queremos agora só o ladrão pobre no xilindró? E nossos ídolos ideológicos?

Estão todos mortos, atrelados, lights.

Somos TODOS CULPADOS...

Somos vazios. Pobres de nós, pobres de espírito. Ai de mim!

Personagens vazios no desbunde geral.

A sociedade é falsa, o puritanismo esconde sublimações, a estética falsificando ampulhetas vazias.

Logrados, dopados – o open doping da mídia atrelada – com posses inidôneas, ainda, como o cavalo da passeata vamos levando a vida-canga, vamos andando perfilados como se num desfile de parada militar...

Como se não soubéssemos a dura realidade, o engodo estatal, o crime federal, mas tudo está pior do que imaginamos, o sonho já acabou faz tempo, fomos usados, e dançamos, irmãos, dançamos com o rabo entre as pernas, e ainda existem as quatro bombas humanas: 01)=O lixo (a bomba!) 02)=A fome (a bomba!) 03)=A violência (a bomba!) 04)=E a superpopulação (outra bomba!). Que virão nos cobrar o preço do preço. Em que endereço nos daremos escondidos então? A teoria Gaya vencerá. Antes de ser destruída pelo homem sedentário, insano, a própria natureza se encarregará de destruir o ser humano desse já condenado Planeta Água.

Somos vítimas de nós mesmos.

Salve-se-quem-puder.

Poetas e grávidas primeiro.

A último a sair apague o incêndio das fogueiras de vaidades humanizadas.

THE END.

* Silas Corrêa Leite - Membro da UBE-União Brasileira de Escritores
Autor do livro virtual O RINOCERONTE DE CLARICE,
mais de 50 mil downloads no site www.hotbook.com.br/int01scl.htm
Autor de "Trilhas & Iluminuras" (Poemas, 1995, Editora Grafite-RS)
Site Pessoal: www.itarare.com.br/silas.htm



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