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Jornal Recomeço
Elaborado com textos dos presos da Cadeia Pública de Leopoldina - MG

Número 80 de 22/11/2003


INFÂNCIAS

Quando saí eram pequeninos
tinham uma irada
cerca farpada
a onda intransigente lhes tirava
pais tios mestres

eram guris de olhos grandes espevitados
que contemplavam em silêncio
as emboscadas as caídas
os levantes os adeuses

enterro após enterro
foram e voltaram
grudados às mãos dos sobreviventes
assim foi que desde logo conheceram
batidas na porta
baterem no coração
a obrigação de não chorar
ser os leprosos da classe

eram meninos de outra infância
sem júlio verne nem salgari
mas isso sim com excursões
quinzenais para ver as grades
para ver grades com carícias
beijos roubados e lenços

eram guris de outra infância
com menos pais do que o programado
com avós e avôs mais ou menos transidos
de assumir a penumbra
infância de outros jogos taciturnos
e longas tardes sem explicação
quando saí eram garotos
embora calassem as perguntas
se despertavam perguntando
por que emboscadas
por que autopsias
por que não estão
por que a mãe

quando saí eram pequenos
hoje cresceram com as ruas
com os plurais
com a raiva

são homens e mulheres sensatos
que escrevem cartas e fazem filhos
e nos estádios e nas praças cantam ao ar quase livre
como os cachorros à lua
mas à noite fazem contas
e dormem com um olho aberto

talvez entre todos lhes devamos
a infância que não desfrutaram
a glória gratuita de ser criança
sem a cabal noção de o serem

serem crianças somente isso
com mães e com tios e mestres
madrinhas e padrinhos
a infância sem prisões
sem fotos nos jornais
sem enterros nem nuvens
de surpresa ou de pesar

agora são adultos
parcamente adultos
e nos podem perguntar
aos avós pródigos
como e que é isso
o exílio
como foram os primeiros anos
a ruptura
com tanta coisa tanta
que ruínas esquecemos
que sortes aprendemos
se voltamos
se voltaremos
de todo ou só em parte

mas no fundo a pergunta chave
é justamente a que não formulam
como era a infância indiscutível
a nossa
a velhíssima
a puída dos anos vinte
a desbotada dos trinta
quando haviam domingos e pais e mestres
e tios e madrinhas
e aniversários do velho e raviólis
e a praia de todos e o estádio

e a palavra cárcere
era apenas a história de um distante
conde de montecristo

Negado HC a delegado acusado de tortura
Os desembargadores entenderam que o decreto de prisão está suficientemente fundamentado, sendo necessária a manutenção da prisão para que a instrução criminal prossiga, anulando-se o possível potencial intimidativo dos acusados pelo Ministério Público..
Veja artigo

Seçao Literatura
No meu tempo de menino tínhamos pena dos pobres. Eles cabiam naquele lugarzinho menor, carentes de tudo, mas sem perder humanidade. Os meus filhos, hoje, têm medo dos pobres. A pobreza converteu-se num lugar monstruoso. Queremos que os pobres fiquem longe, fronteirados no seu território.
Veja o conto de Mia Couto
COM A PALAVRA O APENADO
O sistema penal está repleto de doutores. Muitos deles nunca entraram numa penitenciária e passam longe da periferia com medo de serem assaltados, mas são eles que decidem sobre a conduta social e sobre a personalidade dos habitantes desses locais, para onde se conserva apontada a mira do poder repressivo.
Veja artigo de Luís Carlos Valois
Pesquisa sobre o que pensa o brasileiro sobre a Justiça
O Conselho Federal da OAB divulgou dia 10/11 os resultados da pesquisa nacional de opinião pública sobre a Advocacia e o Judiciário. O planejamento da pesquisa foi feito pelo Instituto “Toledo & Associados.”
Os resultados revelam as opiniões e expectativas das populações das classes sócio-econômicas A, B, C e D, de 16 (dezesseis) capitais brasileiras, quanto à imagem do Poder Judiciário, incluindo a advocacia, promotoria e magistratura. Foram realizadas 1.700 entrevistas.

Veja artigo
DESOBEDIÊNCIA CIVIL?

Os princípios democráticos são vagos na consciência social, represada por fatores históricos de dominação e medo, falta de cultura e participação política ativa, de massa, exilada no governo, que nossa incipiente democracia quer cultivar em árida seara.

Veja artigo de Volnei B. de Carvalho
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