NOSSO NOVO SITE

Nossos links
logo Clique aqui para conhecer o
Jornal Recomeço
Elaborado com textos dos presos da Cadeia Pública de Leopoldina - MG

Número 80 de 22/11/2003


MENINOS EU VI
(fragmentos)
Deodato Rivera


Eu vi meninos que comiam lixo
sem que a ninguém a cena comovesse.
Eu vi meninas que vendiam o corpo
— com nove anos só, quanto abandono! —
sem provocar escândalo a ninguém:

meninos de rua
meninos, eu vi
neste país tão "cristão"
do Oiapoque ao Chuí...

Eu vi meninos que, sem lar, sem pão
tratados eram qual bandidos fossem
por quem, por lei, devia protegê-los;
e vi meninos bons se transformando
em monstros quase, máquinas humanas
capazes de qualquer covarde ação
devido a essa eficaz, atroz lição.

Do Oiapoque ao Chuí
neste país tão "cristão"
meninos sem paz
meninos, eu vi

Eu vi meninos que cheiravam cola
para espantar da fome o horrível gosto
e muitos vi cursando a dura escola
da vida sem direitos nem deveres
que não da força bruta os mandamentos
cruéis, insanos e sangrentos.

E na cidade onde as flores ganham
mais atenção, dinheiro e mil cuidados
do governante que os meninos sujos
(que pelas ruas vão, quais desgarrados
párias, famintos, fétidos, sujeitos
a todos os abusos e violências)
eu vi "meninos-prioridade zero"
aos poucos fenecerem, desvalidos...

Neste país tão "cristão"
do Oiapoque ao Chuí
meninos sem vez
meninos, eu vi.

Eu vi a dor desses abandonados
frutos do ventre de uma pátria injusta
e vi meninos-cristos torturados
em masmorras de horror — céus! — até quando
por negligente olhar e agir omisso
encobriremos crime tão nefando?

Eu vi crianças-mães levar nos braços
outras crianças cedo condenadas
à sorte vil de vil degradação.
Não me contaram — VI! — mentir aquele
que prometia dar prioridade
zero (à esquerda?) à legal proteção
dos meninos sem lar e sem cuidado
— eu vi belas palavras transformadas
em vis promessas, bolas de sabão...

Do Oiapoque ao Chuí
meninos sem voz
meninos, eu vi
neste país tão "cristão "...

Eu vi meninos-náufragos jogados
de novo ao mar de horror e perdição
enquanto esperançosos vislumbravam
o porto, enfim, da ansiada salvação:
e da Justiça — Deus! — a clava forte
brandiam os insensíveis que os forçavam
dessa maneira a volta à triste sorte
ao desespero, à fome, ao crime, à morte!

Eu vi: meninos quase resgatados
da lama à lama e ao crime regressarem
pelo ódio desatado, a inveja e o erro
o mesquinho interesse, a incompreensão
— conúbio poderoso e desastrado!

E alguns mataram, alguns talvez morreram
e todos mil desgraças padeceram
— à exceção dos poucos que poupados
dos Herodes de almas ser puderam
pelos que a isso tudo e mais dariam
se os necessários meios lhes sorrissem.

Eu vi essas pessoas dedicadas
inteiramente à ação pelo resgate
da vida e dignidade dos meninos
sofrerem clamorosa perseguição
e serem presas, serem caluniadas,
vilmente ultrajadas sem respeito
das regras mais primárias do Direito...

E eu vi uma cidade se curvar
silente ao extermínio da verdade
à violação da lei, à prepotência
ao abuso flagrante do poder
e, cego, um Tribunal vi consagrar
o império da impostura e da mentira
qual nessa terra antes só se vira
em tempos de vergonha e de exceção
quando à força curvava-se a razão!

Meninos, eu vi
meninos traídos
do Oiapoque ao Chuí
neste país tão "cristão ".

Eu vi um juiz mandar — sim, um togado! —
quais bichos recolher em arrastões
sinistros e violentos, ilegais
centenas de crianças de uma vez
por serem pobres e não terem lar;
e esse mesmo juiz, contrariado
a vida ameaçou de quem ousara
seu crime à luz do dia condenar...

Eu vi crianças trabalhando em tudo
como animais de carga e tiro e entrega
— crianças que uma enxada mal sustentam
(algumas de chupeta ainda à boca)
na sina exploradora, na opressão
que o futuro lhes veda em magra troca
e o passado refaz de escravidão.

Eu vi—jamais invento nem perjuro —
a Pátria-nova, a Pátria-Sonho exangue
na sarjeta de campos e cidades
pagando em morte, sofrimento e sangue
o preço de ancestrais iniqüidades.

E enquanto uma áurea Lei moderna e justa
é por todos os cantos violentada
do Cristo os que se dizem seguidores
(não todos, mas muitos) aos milhões
contentam-se com nímias orações
e faltam ao dever elementar
da indignação, da solidariedade
com aqueles de seu Mestre preferidos
por tantos abandonos mais sofridos.

Do Chuí ao Oiapoque
do Oiapoque ao Chuí
neste país tão "cristão"
meninos, eu vi
liberto o ladrão e os cristos nas cruzes
por falta, não de pompa e liturgia
por falta ,não de rezas mas de luzes
de amor, de compromisso e profecia.

Que morra o Deus covarde, o deus errado
se podendo evitar tanta ignomínia
na terra cujo nome era sagrado
cansou-se e abandonou sua criação...

E possa da blasfêmia perdoado
ser quem por esses pequeninos sofre
reclama e clama e tanto tem clamado
— aos céus, aos homens, sempre, sempre em vão...

(Outubro, 1994)

Negado HC a delegado acusado de tortura
Os desembargadores entenderam que o decreto de prisão está suficientemente fundamentado, sendo necessária a manutenção da prisão para que a instrução criminal prossiga, anulando-se o possível potencial intimidativo dos acusados pelo Ministério Público..
Veja artigo

Seçao Literatura
No meu tempo de menino tínhamos pena dos pobres. Eles cabiam naquele lugarzinho menor, carentes de tudo, mas sem perder humanidade. Os meus filhos, hoje, têm medo dos pobres. A pobreza converteu-se num lugar monstruoso. Queremos que os pobres fiquem longe, fronteirados no seu território.
Veja o conto de Mia Couto
COM A PALAVRA O APENADO
O sistema penal está repleto de doutores. Muitos deles nunca entraram numa penitenciária e passam longe da periferia com medo de serem assaltados, mas são eles que decidem sobre a conduta social e sobre a personalidade dos habitantes desses locais, para onde se conserva apontada a mira do poder repressivo.
Veja artigo de Luís Carlos Valois
Pesquisa sobre o que pensa o brasileiro sobre a Justiça
O Conselho Federal da OAB divulgou dia 10/11 os resultados da pesquisa nacional de opinião pública sobre a Advocacia e o Judiciário. O planejamento da pesquisa foi feito pelo Instituto “Toledo & Associados.”
Os resultados revelam as opiniões e expectativas das populações das classes sócio-econômicas A, B, C e D, de 16 (dezesseis) capitais brasileiras, quanto à imagem do Poder Judiciário, incluindo a advocacia, promotoria e magistratura. Foram realizadas 1.700 entrevistas.

Veja artigo
DESOBEDIÊNCIA CIVIL?

Os princípios democráticos são vagos na consciência social, represada por fatores históricos de dominação e medo, falta de cultura e participação política ativa, de massa, exilada no governo, que nossa incipiente democracia quer cultivar em árida seara.

Veja artigo de Volnei B. de Carvalho
Aberturas anteriores
Clique no item
Matérias anteriores
Clique no item
Web hosting by Somee.com