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Jornal Recomeço
Elaborado com textos dos presos da Cadeia Pública de Leopoldina - MG

Número 80 de 22/11/2003

 
MEMÓRIAS DE ADRIANO (3)
Marguerite Yourcenar

O escravo e a justiça de Adriano

" Na Espanha, nos arredores de Tarragona, certo dia em que visitava uma mina semi-abandonada, um escravo, cuja vida bastante longa se passara quase toda naqueles corredores subterrâneos, lançou-se sobre mim com uma faca. Não sem lógica, ele se vingava na pessoa do imperador dos seus quarenta e três anos de servidão. Desarmei-o facilmente e entreguei-o ao meu médico. Sua fúria abrandou; transformou-se no que realmente era: um ser humano menos sensato do que outros e mais fiel do que muitos. Esse delinqüente, que a lei rigorosamente aplicada teria executado imediatamente, tornou-se-me útil servidor.

A maior parte dos homens assemelha-se a esse escravo: submeteram-se demais. Os longos períodos de embotamento são interrompidos por algumas revoltas tão brutais quanto inúteis. Desejava saber se uma liberdade sabiamente compreendida não daria melhor resultado, e espanta-me que semelhante experiência não tenha tentado outros príncipes.

Esse bárbaro condenado ao trabalho das minas tornou-se, para mim, o símbolo de todos os nossos escravos, de todos os nossos bárbaros. Não me parecia de todo impossível tratá-los como eu havia tratado esse homem, torná-los inofensivos através da bondade, contanto que soubessem, em princípio, que a mão que os desarmava era firme.

Até agora todos os povos decaíram por falta de generosidade: Esparta teria sobrevivido mais tempo se tivesse interessado os Hilotas na sua sobrevivência; um belo Atlas cessa de sustentar o peso do céu e sua revolta abala a Terra. Eu teria querido recuar o mais possível, evitar, se pudesse, o momento em que os bárbaros do exterior e os escravos do interior se lançarão sobre um mundo que lhes mandam respeitar de longe , ou servir como inferiores, mas cujos benefícios não são para eles. Empenhava-me em que a mais deserdada das criaturas, o escravo encarregado da limpeza das cloacas das cidades, o bárbaro esfaimado que ronda as fronteiras, pudessem sentir interesse pela estabilidade de Roma.

Duvido que toda a filosofia do mundo seja capaz de suprimir a escravidão; no máximo mudar-lhe-ão o nome. Sou capaz de imaginar formas de servidão piores que as nossas mais insidiosas: seja transformando os homens em máquinas estúpidas e satisfeitas que se julgam livres quando são subjugadas, seja desenvolvendo neles, mediante a exclusão do repouso e dos prazeres humanos, um gosto tão absorvente pelo trabalho como a paixão da guerra entre as raças bárbaras. A essa servidão do espírito ou da imaginação, prefiro ainda a nossa escravidão de fato. Seja como for a terrível condição que coloca um homem à mercê de outro homem deve ser cuidadosamente regulada pela lei."

Do Livro "Memórias de Adriano", Ed. Nova Fronteira, 18ª edição.1988. Tradução de Marha Calderaro

 
Negado HC a delegado acusado de tortura
Os desembargadores entenderam que o decreto de prisão está suficientemente fundamentado, sendo necessária a manutenção da prisão para que a instrução criminal prossiga, anulando-se o possível potencial intimidativo dos acusados pelo Ministério Público..
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Seçao Literatura
No meu tempo de menino tínhamos pena dos pobres. Eles cabiam naquele lugarzinho menor, carentes de tudo, mas sem perder humanidade. Os meus filhos, hoje, têm medo dos pobres. A pobreza converteu-se num lugar monstruoso. Queremos que os pobres fiquem longe, fronteirados no seu território.
Veja o conto de Mia Couto
COM A PALAVRA O APENADO
O sistema penal está repleto de doutores. Muitos deles nunca entraram numa penitenciária e passam longe da periferia com medo de serem assaltados, mas são eles que decidem sobre a conduta social e sobre a personalidade dos habitantes desses locais, para onde se conserva apontada a mira do poder repressivo.
Veja artigo de Luís Carlos Valois
Pesquisa sobre o que pensa o brasileiro sobre a Justiça
O Conselho Federal da OAB divulgou dia 10/11 os resultados da pesquisa nacional de opinião pública sobre a Advocacia e o Judiciário. O planejamento da pesquisa foi feito pelo Instituto “Toledo & Associados.”
Os resultados revelam as opiniões e expectativas das populações das classes sócio-econômicas A, B, C e D, de 16 (dezesseis) capitais brasileiras, quanto à imagem do Poder Judiciário, incluindo a advocacia, promotoria e magistratura. Foram realizadas 1.700 entrevistas.

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DESOBEDIÊNCIA CIVIL?

Os princípios democráticos são vagos na consciência social, represada por fatores históricos de dominação e medo, falta de cultura e participação política ativa, de massa, exilada no governo, que nossa incipiente democracia quer cultivar em árida seara.

Veja artigo de Volnei B. de Carvalho
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